um texto meu sobre tóquio

(escrito no amanhecer, em novembro de 2010)

São 5 da manhã e os trens começaram a fazer sua rota pontualmente. Mas eles não me acordaram; eu já estou acordada há meia hora extasiada por estar em Tóquio. Da janela semi aberta vejo as luzes vermelhas de cima dos prédios que piscam num compasso descompassado avisando quem vem do alto o quão altos eles são. Em meia hora deve começar a clarear e está aberto oficialmente o nosso penúltimo dia na cidade. Os dias têm sido lindos, meteorologicamente falando. O senhor do tempo daqui nos brindou com céus azuis e um frio calculado (ontem quase quente) que nos permite andar sem parar por quase 10 horas diariamente. Os dias têm sido lindos em todos os sentidos. Rever a cidade e revivenciá-la com calma, com tempo para cada sabor e cada cor, para cada estação de metrô, para cada templo que passa por nós, para cada chá verde, para cada criança passando pela rua, para cada ruazinha e para cada super avenida, tem sido uma experiência capaz de preencher com alegria cada pedacinho de mim.  Ontem, a caminho do nosso jantar, disse para o Roger que conhecer Tóquio foi incrível, reconhecê-la tem sido mais incrível ainda. Um primeiro contato pode ser mais surpreendente, com essa mistura de neon, ordem, caos, reverência, cor e quase mistério, mas só num segundo contato me fez observar um fator que faz de Tóquio uma metrópole muito única: Tóquio é uma cidade silenciosa. Não porque as pessoas sejam quase obrigatoriamente silenciosas, não porque seja obrigatório desligar o toque do celular nos transportes públicos, não apenas por causa das pessoas – aqui, nem os carros fazem barulho. No silêncio dessa metrópole imensa, é possível perceber nitidamente cada pequeno som, dos corvos e passarinhos, dos nossos passos, do nosso próprio interior. Claro que existe a porção barulhenta. Existem os grandes prédios com as grandes TVs com luzes e som de Roppongi e Shibuyia, existe o ruído das senhoras dentro das lojas de departamento de Ginza, existem as conversas animadas das jovens mães com seus filhos e suas amigas na parada para o café em todos os cantos, existe a conversa animada na mesa de bar no fim do expediente, existe o barulho ensurdecedor e terapêutico dos pachinkos. Mas ainda que faça barulho, você se escuta e escuta ao outro. E para cada avenida cheia de apelos multimídia uma pequena ruazinha sem calçada e com a tranqüilidade de suas casas de madeira está à sua espera. Para cada loja de departamento um templo. Para cada pachinko uma loja de doce.  Ontem fizemos uma viagem reveladora desse mecanismo toquiota. Saímos da ruidosa e escancarada Shibuya e em 4 minutos de trem estávamos na silenciosa e discretamente revelada Shimo-kitazawa; uma micro cidade dentro da cidade grande, com sua vida girando em torno da estação de trem, com seus negócios locais à norte e à sul, com seus poucos apelos importados e muitos encantos locais. Shimokita, como dizem os locais, não está nos mapas turísticos, e provavelmente seus moradores façam votos de que nunca esteja, assim como não querem que cheguem por lá modernidades como o metrô e grandes vias para carros já planejados e postergados pelo governo. Shimokita tem que ser salva, como apela a comunidade local, e mantida com seu charme, suas ruas para pedestre, suas lojinhas com donos pessoas físicas e não jurídicas, seu silêncio e seu ruído tão toquiotas. Agora já são 6 horas e eu vou ver o nascer do sol.

Anúncios
Esse post foi publicado em japas na vida. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s