A gente vive classificando quem come cru, quem não come, os vegetarianos, os que não misturam as cores de alimentos e outras tantas diferenças, como se tratassem apenas de questões do paladar. Mas já pensou o que os japoneses acharam da nossa comida, quando experimentaram pela primeira vez? Isso mesmo, intragável, claro!
Lendo o excelente livro “Corações Sujos”, do Fernando Morais, sobre um lado nada festejável da imigração japonesa, ele coloca a comida como um dos primeiros e traumáticos choques culturais que os japas sofreram ao chegar por aqui. Aliás, como para a maioria esmagadora dos imigrantes, vindos da Ásia ou da Europa, para os japoneses, nem tudo foram flores, mesmo. Vale uma passagem do livro:
“ As rígidas restrições impostas nos anos de guerra aos japoneses residentes no Brasil, no entanto, tinham sido apenas um capítulo a mais no calvário de provações vivido por eles desde dia 18 de junho de 1908, quando aportou em Santos o navio Kasato Maru, trazendo do Japão as primeiras 165 famílias de agricultores, num total de 768 pessoas. Levadas para a triagem na Hospedaria dos Imigrantes, na capital paulista, elas experimentaram ali o primeiro de incontáveis choques culturais: a comida brasileira era intragável para um asiático. Habituados a uma alimentação à base de legumes, cereais, verduras e peixes de água salgada, os japoneses sentiram náuseas diante da comida gordurosa que lhes ofereciam. Temperar com sal o feijão, que eles só conheciam como ingrediente de doces, por exemplo, parecia uma dieta sob encomenda para produzir diarréias…. Estavam em um lugar cuja língua não entendiam e conviviam com um clima diferente, com gente que tinha costumes, religião e até caras diferentes das deles. Seus hábitos, como tomar banho sentados no ofurô, a banheira circular de madeira, eram ridicularizados pelos brasileiros. Suas mulheres eram chamadas de “macacas” pelas vizinhas, porque carregavam os bebês carregados às costas. Homem que saíssse na rua calçando o jikatabi – o sapato japonês em que o dedão do pé fica separado dos demais, semelhante ao casco do animal – era imediatamente apelidado de “unha de vaca.”
março 28, 2008...12:11 pm
comida intragável, a nossa
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